Fátima, 100 anos de aparição, 100 milhas de bicicleta

O “bichinho” já tinha uns anos. Desde o Tagus 50 Mile do ano passado, que queria fazer a viagem Lisboa-Fátima completa, seguida de preferência. Não por questões religiosas, porque não sou um homem de religião mas por Fé, sou um homem de Fé.

Apareceu há uns meses o Luís Neves Franco com ideia de ir a correr até lá, para chegar a 13 de maio de 2017. O dia, era a conjugação perfeita de factores. O aniversário da minha Mãe, a visita do Papa Francisco a Portugal, a comemoração do centenário da primeira Aparição da Nossa Senhora, em Fátima, todos os caminhos apontavam para lá. No entanto, vários factores (alguns físicos, alguns psicológicos) condicionaram a preparação para uma aventura pedestre de tal dimensão nesta alturaa, e o plano passou a ser o eventual acompanhamento de bicicleta desse grupo a correr. Mas, o receio falou mais alto. Receio da velocidade lenta demais, receio da duração, receio da ida…

Surgiu, depois, o Luís Parro, a juntar um grupo discreto que iria arrancar de Lisboa às 03h00 de dia 13 de maio, para chegar a Fátima perto da hora de almoço desse dia. Primeiro alinhei mas depois recuei, mais uma vez o receio falou mais alto. Receio da hora de saída (não da noite mas da hora desajustada dos horários habituais), receio da velocidade rápida demais, receio do desconhecido, e deixei de parte essa hipótese também.

Falei com o Miguel Cunha e o Bruno Matias. Enquanto o Miguel disse logo “vamos lá”, o Bruno, ponderado, respeitou a preparação que anda a fazer para o seu “Desafio do Semestre” (e fez bem), e disse “não dá para ir”. Desafiei eu também o João Ramires, desafiou o Miguel o Ricardo Polónio e ficámos quase todos no talvez. No dia 12 de maio de manhã ainda estávamos quase todos assim. Enquanto um fotografava mexilhões, o outro comprava uma mochila e decidia o que levar, o João tinha passado a ida para uma próxima oportunidade.

Já eu, tinha tudo arrumado de véspera, faltava só a roupa no alforge, e o receio, o habitual receio. Receio das horas de viagem, das dores nos braços, da noite, dos “malucos na estrada”, da multidão em Fátima. Receio das quedas, das horas a pedalar, da chuva, do frio, de me perder, receio do desconhecido mas de manhã estava decidido, iria, nem que fosse sozinho.

Saída prevista para as 16 horas, atrasámos para as 17, saímos de Santa Apolónia a atacar o trilho. Cada um dos três à sua maneira, um mais pesado, os outros mais leves. Enquanto um tirava fotografias a cada dez quilómetros, o outro não dizia palavra. Fugimos e ultrapassámos a lama como pudemos. Fomos postos na ordem por um aguaceiro breve em Sacavém, e brindados com uma noite de Lua Cheia espetacular, onde ouviamos os grilos a grilar nos sítios por onde passávamos.

De surpresa, o Bruno Matias e o Fábio Carvalho, seguindo a nossa posição através das atualizações intermitentes que ia fazendo ao FollowMe, emboscaram-nos em Valada já a lua ia alta. Combinámos encontro mais à frente, em Santarém e estivemos mais de quarenta minutos juntos. Enquanto assavam chouriço para nós, íamos conversando do que já tinha passado, e do que vinha à frente, sabendo que ali ia “começar a doer”, já sabia, já me tinham dito, toda a gente que por lá tinha passado mo disse.

Revigorados da paragem e abastecimento, avançamos de queixo erguido para com o que tínhamos pela frente e aí, realmente, o percurso mudou. A paisagem bucólica da Lezíria transforma-se em Serra pedregosa, e as subidas sucedem-se umas às outras, incluindo algumas paredes que me obrigaram a desmontar (3 vezes desmontei na viagem, tal como Pedro 3 vezes negou Cristo) e descidas de pedra solta. A força nas pernas, nos braços e na cabeça ajudou bastante. Tive de pôr o receio de lado e focar-me no ali e no agora, e no que realmente estava a fazer.

Ia pensando como iria o grupo a correr, lá bem à frente, e se já teriam chegado, e às 03h00 comecei a pensar no grupo que vinha lá atrás a pedalar, olhando de quando em vez para trás a ver se não faziam a surpresa de aparecer de repente, jovialmente, a ultrapassar-nos. O caminho, um deserto. Cruzámo-nos com um ciclista que nos ultrapassou algures no meio de nenhures e nada mais. Paramos onde havia água para beber, comemos quando tivemos fome. Os meus companheiros de viagem pacientes com o meu andamento ligeiramente diferente do deles, mais lento, mais pesado, mais ponderado talvez, mas, nunca nos perdemos, nunca suspirámos e durante as 15h05 que durou a viagem de Santa Apolónia até ao Santuário de Fátima, nunca nos desentendemos uns com os outros, deixando a viagem fluir e o Destino decidir a forma de chegarmos ao nosso destino.

Assistimos juntos ao nascer do Sol, e suámos juntos na subida de Minde, onde alternámos entre os Distritos de Santarém e Leiria a caminho das eólicas. Chegámos a Fátima, e chegámos ao Santuário, já o Sol aquecia o corpo e a mente. As instruções da GNR eram claras, “bicicletas não entram” mas, o Sr. Guarda que nos recebeu observou-nos de alto abaixo e calou-se a pensar. Talvez as olheiras, a lama, o aspeto cansado mas feliz tenham ajudado mas disse “Vá, bicicletas não podem entrar mas a vós deixo-vos. No entanto, vejam lá o que fazem, querem ir para onde?” e nós “aqui já, só na entrada, claro que não vamos para o meio das pessoas”, e assim foi. Entrámos cansados, enlameados, com os nossos jipes de guerra tão cansados e sujos como nós no Santuário de Fátima, na hora exacta que tínhamos previsto chegar, bem a tempo da Canonização dos Pastorinhos e da Missa do Papa Francisco.

Relaxámos um bocado (não muito, pois ainda havia a viagem de regresso a fazer), e telefonei à minha Mãe, afinal de contas, ela fazia anos e esta viagem foi também uma prenda que lhe ofereci e falámos com jornalistas . Saímos do Santuário depois da Beatificação, fomos comer qualquer coisa rápida e dirigimo-nos para o Entroncamento, numa viagem que só por si daria outro relato.

Prestes a terminar a história, mais intimista do que tem vindo a ser habitual, não posso deixar agradecer à Elsa e à Sara o apoio nesta viagem (especialmente à Elsa por “aguentar as pontas” nesta altura tão turbulenta no nosso Lar), ao Bruno Matias por nunca deixar de acreditar e de puxar por mim, ao Jaime Martins Alberto que, desde o primeiro instante em que lhe disse “Jaime, vou a Fátima de bicicleta no 13 de Maio deste ano” me disse “A Fátima de bicicleta? Em quantos dias?” e eu “Seguido.” retroquindo ele “Seguido? Tu és mas é maluco… Mas vá, vai lá e diverte-te, do que é que precisas?” e por fim, aos meus companheiros de viagem, que fizeram o favor de ir sempre à minha frente a abrir caminho, aliviando-me da minha carga habitual de guia, da qual descanso actualmente, a todos vós, obrigado.

Se foi gratificante, esta ida a Fátima? Foi, claro. Foram 15h05 inesquecíveis. Não sendo eu um homem de Religião, sou um homem de Fé e a viagem fez-me ficar mais uma vez ciente isso, foram umas boas horas de meditação. Se foi fácil? Não, não foi fácil, porque ainda para mais porque ia “pesado”, em preparação também para outras viagens maiores. Se o caminho é acessível? Sim, é acessível, embora seja precisa uma certa preparação e claro de muita paciência. Qualquer precipitação à noite no meio do nada é desastre certo. Se a ida correu bem? Sim, correu muito bem a ida.

Se repetia? Claro que sim, já estou a pensar na próxima, porque a vida não é só corrida.

2 comments

  1. Alexandre Duarte

    Parabéns. Gostei.

  2. Bruno matias

    AMIGO não tens de agradecer nada! Não é nada que não tivesses feito por mim!
    Cá estaremos para muitas e próximas aventuras. Abraco

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