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Maratona do Porto, 2014

Cada uma, é como cada qual, a Maratona. Esta, que foi a minha sexta, não escapou à regra.

Pensei de que forma poderia abordar o assunto e contar esta história. Não sabia se a publicaria assim, nem se seria a forma correcta mas acho que é, sim, porque não existe uma forma correcta de o fazer, existe, só isso.

A viagem, nos autocarros da organização, como no ano passado, com a gestão habitual da Ana, entre amigos e desconhecidos. Muita conversa, muitos nervos. Eu, tranquilo e um bocado afastado e pensativo. Uma Maratona começa muito antes da prova, e para mim a Maratona é a Prova. Qualquer Maratona que tenha corrido me deixa com os nervos em franja, cada uma à sua maneira e esta, não foi excepção.

Chegados à Invicta, feira da prova, levantar dorsais, comer massa (com água desta vez), visitar a feira, conhecer finalmente a “Peregrina” e encontrar e reencontrar amigas e amigos do mundo da corrida, e não só. Voltar para os autocarros (quatro este ano). A tranquilidade mantinha-se, nem o automobilista que atrasou a nossa saída do parque por 45 minutos me irritou, aproveitei e dormi uma sesta sozinho dentro da camioneta, ao som dos Abba em flauta de pan.

Já no hotel, no do ano passado, na Rua da Meditação, sem nada planeado senão alinhar para correr 42.195 metros no dia seguinte às 09h00, preparei tudo para o dia seguinte. Tentativas houveram de marcar jantares, variados, nos sítios mais dispersos. Era minha intenção comer uma francesinha, num sítio onde desse para ir a pé, nem que fosse sozinho, mas não foi assim. Sete da tarde, quatro de nós estávamos no Capa Negra 2. Três francesinhas e uma massa com vegetais para quatro portugueses. Uma ou outra cerveja, um ou outro refrigerante, uma volta no shopping e num pseudo-mercado-gourmet-tradicional-com-tapas, igual a tantos outros que há por aí e, hotel de novo. Dez da noite, tudo na cama.

Às sete, tomava um pequeno-almoço ligeiro com um amigo e participante que estava no mesmo hotel que eu, e arranque a buscar os outros dois amigos e participantes do jantar ao hotel onde era para ter ficado originalmente mas, quis o destino que assim não fosse, o destino. No hotel, nesse hotel, muito mais caras conhecidas e alguns amigos também. Chegada à zona da partida, milhares de participantes. Muito mais caras conhecidas, algumas fotografias e arranque, à hora pontual, para 42.195 metros gelados.

Sobre a prova. O que poderia eu dizer sobre a prova?

Podia falar de cadências, de subidas, de descidas, do vento, da temperatura, das expectativas que levava, daquela altura em que fui a rolar a 3’30”, da outra altura em que me arrastei a 7’30”. Da outra vez que bebi uma garrafa de água, dos atletas que correram por cima dos passeios quando não haviam atletas mais lentos à sua frente a empatar-lhes a progressão, de como na primeira parte da prova gastei tudo o que tinha e na segunda fiquei nas lonas, dos trovões e relâmpagos, da paisagem magnífica desta prova, da tortura que é correr em cima de paralelipípedos, e correr a desviar-nos de linhas dos eléctricos mas não, não vou falar disso.

Vou antes falar das pessoas por quem dei meia volta para cumprimentar, das que chamaram por mim, do apoio do público “anónimo” quase sempre presente no percurso, dos amigos que fui cumprimentando no caminho e, do final. O final de uma Maratona é sempre emocionante, é o culminar de meses de preparação, a gestão das expectativas, é sempre comovente de ver.

Cheguei ao fim da Maratona mas, ainda sou verde nisto, e não consigo gerir o esforço e a emoção de uma maneira eficaz e de forma a que não deixe a sua marca, por vezes mais forte do que nas outras. Bem sei que a marca faz parte mas, desta vez… Na chegada, tinha uma pessoa à minha espera, uma amiga, na subida final, 500 metros antes da meta, onde ia fresco que nem uma alface. Foi de surpresa, não estava à espera que ela estivesse lá. O que fiz então, acelerei e fugi dela, meio em brincadeira, meio a sério, disse-lhe para ir ter lá à frente à esquerda. Passei a meta e como sempre o tempo parou. Fiquei parado a olhar para a esquerda, vi que seria impossível ela estar lá, enviei uma mensagem para ela ir para a direita e fiquei ali, colado ao chão, apático e à espera. Vi mais participantes chegar, alguns amigos, e muitos desconhecidos. Vi chegadas em modo predador, e vi chegadas em modo presa. Coloquei uma medalha ao pescoço de um amigo, e não usei a minha medalha, foi directo para o bolso. Vi participantes a cairem no chão involuntariamente, outros a atirarem-se para o chão, sorrisos, lágrimas, beijos, abraços, é emocionante ver a chegada de uma prova destas, da Prova, mais ainda depois de a fazer.

Entretanto, menos de dez minutos depois de eu chegar, começa a chover. Não foi gradual, não foi uma pinguinha nem um aguaceiro, foi uma chuvada, um temporal, que me levou a outros temporais e eu, não reagi. Congelei ainda mais, chegando ao ponto de ficar efectivamente congelado, quando finalmente acordei, fui buscar um plástico para me cobrir (inútil já naquela altura) e pensei que o melhor para a minha saúde seria, ir-me embora. Fui para os autocarros que nos levavam à Rotunda da Boavista de novo, e consegui ir sentado até lá, perto do hotel.

Faltava ainda chegar um amigo, não sabia dele, soube depois que, a amiga que me esperava tinha esperado por ele, quarenta minutos, trinta dos quais debaixo daquela chuvada, depois de ter corrido os 16km da Family Race há horas. Já lhe pedi desculpa a ela, por não ter tido força anímica nem o raciocínio para a ir procurar lá atrás, para estar com ela, ela a única pessoa que me esperou efectivamente a mim. Fiquei, e ainda estou, afectado com isso e por isso, peço-lhe então desculpa de novo, aqui na eternidade digital, desculpa. Pedi já também desculpa ao último amigo a chegar, companheiro do jantar e do pequeno almoço, por não ter ficado à espera dele mas, estava mesmo a gelar, a chuva e a cabeça traíram-me, desculpa, desculpem, outros dias virão, com certeza.

Depois do banho

Já de banho tomado, desafiei esse amigo a almoçarmos logo ali ao lado do hotel, onde partilhámos, num almoço por ordem inversa, dois cafés, um bacalhau à lagareiro, uma água e uma cola. Os outros dois companheiros de jantar, finalizadores da Maratona também, juntaram-s a nós um pouco mais tarde, comendo refeição igual.

Na Rotunda da Boavista, a caminho do autocarro e combóio, o que nos levasse a casa, cruzámo-nos ainda com o veterano corredor que tinha completado a sua 1011ª Maratona, ainda com a roupa de corrida e embrulhado em plásticos, encostado a uma parede enquanto fumava um charuto… Chamem-me estranho a mim… 1011 Maratonas…

Por fim no autocarro, viagem à chuva, sem incidentes, meio a dormir meio acordado, como se estivesse ainda no hotel na Rua da Meditação, porque a vida não é só corrida ;)

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