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Maratona de Lisboa, 2014

No ano passado, participei nesta prova a convite, mas não em nome próprio. Embora agradecendo e aceitando-o, uma Maratona é algo que deve ser respeitado e, para a correr, deve-se fazê-lo em modo de desafio assumido, do princípio até ao fim. No ano passado, desrespeitei-a, foi o que aprendi, no ano passado.

Este ano, participei de novo a convite, mas desta vez em nome próprio, respeitando-a então, nessa forma. Na iminência de ir ou não ir, entre atraso na chegada do dorsal, rinite (ou resfriado ou o que tenha sido), e outros factores que não irei enunciar por hora, tudo se conjugou para que tenha conseguido apanhar os transportes de Lisboa para Cascais, alinhado na partida, feito a prova e chegado ao fim são, salvo e inteiro mas, o que é que aprendi? Vamos por partes, relatando os factos do dia da forma mais aproximada que conseguir, bem como as marcas quilométricas, que também são aproximadas, conforme me lembrar.

Quilómetro menos trinta

Logo de manhã bem cedo, ainda nem os passarinhos cantavam nas árvores do quintal, já eu me debatia com o primeiro problema logístico do dia. Não era a questão de onde ia levar as seis embalagens de lenços de papel, nem se havia de levar óculos escuros ou não, mas sim que camisola levar vestida… Levava a amarela, levava a transparente ou pura e simplesmente, tirava à sorte? E assim fiz, quis o destino que me calhasse a habitual camisola azul das provas médias e longas. Já tenho tantas fotografias com ela que, quem as vir juntas pensará que é tudo tirado no mesmo dia.
Decidida a roupagem, paracetamol e café tomados, e avanço para o Metro. O primeiro era às 06h30, e dava tempo à justa de chegar à estação.

Quilómetro menos vinte e nove

Já dentro da composição, que quis trocar as voltas aos sabedores e conhecedores e, desta vez estava na linha contrária ao habitual, encontrei quem? Pois é, o Rui Pinho e, a fazer o quê? A caminho de Cascais, imagine-se. Ficámos, dentro da carruagem, tranquilamente à espera que o senhor motorista (ou condutor, não sei ao certo como se diz e espero que este desconhecimento não cause nenhuma greve no Metro) arrancasse, já fora da hora prevista. Os passageiros, na maioria estrangeiros com ar de quem ia para Cascais ou para cima da Ponte Vasco da Gama.

Quilómetro menos vinte e sete

Chegados ao Cais do Sodré, já eu tinha explicado toda a técnica de transbordo ao Rui, bem como o trajecto que tinhamos de fazer em passo acelerado entre o Metro e o comboio, se quisessemos arranjar lugar sentado numa carruagem. O plano, é claro que parecia saído de uma história do The Lonesome Runner pois fomos sair na escadaria exactamente o mais longe possível da plataforma de embarque do comboio.
No entanto, o Santo Padroeiro dos Maratonistas esteve do nosso lado e quis que nós conseguissemos (mesmo depois de um ligeiro sprint e de uma breve luta com a máquina de validar bilhetes) lugares sentados, virados para a frente no sentido do comboio, e à janela.
A janela, era daquelas opacas, e já uma vez tinha tido uma aventura com uma delas na ida para uma corrida, exorcizei isso com o Rui, e o comboio arrancou. Como previsto, lata de sardinhas, cheio até ao tecto. Ao pé de nós, no chão, o Paulo Rodrigues, atrás, o João Miguel Santos e à volta, um sem número de ilustres atletas do pelotão, bem como uma senhora “à civil” que saiu em Algés e não fazia ideia que aquilo iria “estar tão cheio hoje a esta hora”.
Durante a viagem, a conversa, das 24h de Portugal, da Serra d’Isto, da Maratona d’Aquilo, do pequeno almoço e mais algumas dicas valiosas que passei ao Rui, relativas ao percurso e à sua altimetria complexa, que tiveram, modéstia à parte, grande influência no seu desempenho fantástico na prova.

Quilómetro menos um

Chegados a Cascais, separei-me do Rui, e fui ter com o João Ricardo, o Paulo Jorge e o Sr. Carlos, os três estreantes na distância Rainha, que bebiam café tranquilamente no bar da estação de Cascais, enquanto esperavam por mim. Optei depois por ir a pé até ao hipódromo, mesmo tendo boleia de carro do João, vou explicar porquê.
Em primeiro, porque já tinha apanhado dois transportes para ali, e precisava começar a esticar as pernas e o “meu” ritual de aquecimento, que é mais mental do que físico. Tive receio de que não houvessem lugares lá para cima, e das eventuais voltas para estacionar o carro, et cetera, e do stress que isso me poderia causar.
Em segundo, porque me apetecia “respirar um pouco” a Vila. Já morei ali, em Cascais, e gostei bastante, e gosto bastante dela, da Vila. Pena a partida este ano não ser na Baía mas, com a quantidade de atletas presentes iria sem dúvida ser complicado. Fui então caminhando, alternando com a corrida, a ver se colocava o organismo em modo mais acordado e menos atordoado. Pelo caminho, fui encontrando vários amigos e amigas, entre o Fernando, o André, a Cristiana, a Ana, a outra Ana, a Filipa, o Tiago, a Brigitte, o Fábio, o Pedro e muitos mais, pedindo desde já desculpa por não conseguir nomear todos.
Telefonei algumas vezes para o João para me reencontrar com ele, “aterrorizei-o” (e aos amigos) mais um bocado quanto a correr uma Maratona e, foi dada a partida, com dois minutos de atraso ou lá o que foi, algo estranho numa prova IAAF Gold.

Quilómetro zero

O pelotão, onde eu estava, saiu compacto. As minhas expectativas para esta Maratona não eram muito elevadas, geralmente nunca são mas aqui, não o eram especialmente. Levava previsto acabar a dita cuja entre as 4h00 e as 4h15 de prova (tempo de chip) e assim, o arranque foi tranquilo, dentro do ritmo previsto, ainda não estava bem acordado de qualquer forma. Fui ultrapassando e sendo ultrapassado, o habitual. Se já numa prova pequena é assim, quanto mais numa grande.

Quilómetro zero ao quilómetro sete

Andando e deixando andar, apreciar os bocadinhos de mar ainda meio a fungar e, finalmente, acordei.
Quem já me conhece, sabe que nestes percursos “maiores”, o meu grande inimigo é o intestino (grosso). Geralmente sou regular mas nestes dias o stress prega-me partidas, é assim mesmo, nada a fazer, já vou prevenido. Então, no quilómetro sete tive de fazer uma paragem estratégica numa zona arborizada, que me deixou muito mais confortável durante o resto do percurso, embora me tenha roubado dois preciosos minutos no final, sem stress, não iria ao pódio de qualquer forma (talvez vá, quando tiver 98 anos).

Quilómetro oito ao quilómetro vinte

De volta ao percurso, reencontrei o Rui que seguiu o seu caminho e fui andando por ali em direcção ao Parque das Nações, entretendo a cabeça como podia, lutando com os declives da estrada, continuando a ultrapassar e a ser ultrapassado (incluindo pelo PATO Maratonista), sempre dentro da minha cadência prevista.
Chegado à Cruz Quebrada, alguns amigos apoiavam os atletas que passavam, realço o Nelson Barreiros, já em treino para Barrancos, sem dúvida. Fui seguindo, tranquilo
Nos abastecimentos, felizmente devido ao clima ameno, levava um plano “imbatível” e que funcionou na perfeição.
Ao contrário das outras vezes, onde levei “carradas” de coisas para comer, que nunca mais acabam, entre geles e pastilhas isostar de chupar, desta vez fui minimalista. Levava um gele com cafeína, uma pastilha de isotónico SIS, uma saqueta de DYORALITE e meia dúzia de pastilhas isostar (metade voltou para casa). Levava também quatro infalíveis rebuçados de mentol, não sobrou nenhum.
Nos abastecimentos, pedia uma garrafa de água, bebia e bochechava a mesma, deitava fora o mais possível para os caixotes ou senão, para o mais longe possível da estrada, sem tampa. Naqueles em que havia Powerade, ou lá o que era, não o bebia, tinha o meu próprio isotónico para quando chegasse a altura.
No abastecimento da Cruz Quebrada então parei, pedi duas garrafas de água, coloquei metade da pastilha SIS em cada e arranquei de novo, bebendo-as até ao fim.

Quilómetro vinte ao quilómetro vinte e oito

Esta parte do percurso é, para mim, a mais desinteressante. Muro tivesse havido, teria sido nesta zona que tinha aparecido. Embora tenha notado em mais gente presente do que no ano passado, é um tédio. É aquela zona onde dá para descomprimir mais, pensar em tudo e em todos. A luz da zona é boa, a paisagem mais ou menos. Deu para pensar em projectos passados e projectos futuros, desligar um bocado e, notou-se na minha performance, que foi um bocado abaixo, tendo a cadência da corrida baixado bastante. Grande parte disto é derivada também aos poucos treinos a direito (sem subidas e descidas) que tenho feito nos últimos meses, tenho de reforçar isso a partir do início do ano já percebi, e procurar equilibrar mais os treinos, entre força e resistência e manutenção de cadência a direito.
Entretanto ali por Alcântara, aparece o Pedro Jaime e uns amigos,  trocamos uns galhardetes amigáveis durante uns cinquenta, ou quinhentos metros, fossem eles o que fossem, e ele vai à sua vida. Nessa altura, já aquelas perneiras azuis me iam a picar nos olhos.
Isto porque, durante longos quilómetros, outro par de pernas, e respectiva dona, que não conhecia de lado nenhum ia andando por ali por perto. Ora a ultrapassava eu, puxando por toda a minha força para fugir a um participante em cujos bolsos chocalhavam chaves, moedas ou ambas as coisas, ora era ultrapassado no pico da minha fraqueza por aquela outra participante de pernas revestidas de tecido de cor garrida. Quando ganhei consciência deste facto, apercebi-me que isto já vinha a acontecer praticamente desde o início da prova, e comecei a tomar mais atenção.

Quilómetro vinte e oito ao quilómetro trinta e dois

A entrada na Baixa de Lisboa. À porta, consumo o gele com cafeína que levava, havia um subida e os paralelipípedos, e precisa pelo menos de um placebo para me dar força. Embora houvesse por ali um abastecimento onde davam geles, tomei o meu. Aceitei o da organização, verifiquei o prazo de validade, guardei-o no bolso e segui pelas ruas que bem conheço, a subir até aos Restauradores, descendo depois de novo até à Praça do Comércio. Nesta zona, bastantes participantes utilizavam o passeio, de forma a fugir à dureza dos paralelipípedos. No meu caso, mantive-me na estrada. Anteriormente, em outros tempos, cortei a estrada e fui pelo passeio mas, isso foi noutros tempos, prova de estrada é para fazer pela estrada, senão chamava-se prova de passeio.
Na Rua da Prata, sentido descendente, ultrapasso o Carlos, o marcador das 4h15, que estava com alguns problemas que o obrigavam praticamente a andar enquanto recuperava o conforto possível. Estive um pouco com ele, certifiquei-me que ele estava bem dentro dos limites do aceitável e segui caminho então.
Uma coisa que me questionei foi o seguinte, como é que numa prova deste “calibre” colocam pessoas, seres humanos de carne e osso, a fazerem de marcadores de tempo “sozinhos”, em vez de colocarem uma equipa a fazer isso. Em Espanha, quando corri a Maratona de Madrid, os marcadores de tempo eram equipas, e não uma pessoa só, se alguma coisa corre mal com um é uma chatice claro mas o panorama maior, o marcador da prova, está assegurado. Enfim, as melhoras rápidas, Carlos.

Quilómetro trinta e dois ao quilómetro trinta e três

Algo por aí, nesta altura é que a prova ia começar. O Diogo Castro Pereira esperava os participantes da Maratona, uma Tartaruga festiva que bom efeito fez e, aproximava-se a zona da confusão.
A Maratona tinha partido duas horas antes da Meia Maratona. Quando cheguei a Santa Apolónia, zona onde os percursos se juntavam, ia com cerca de três horas de prova. Os participantes da Meia Maratona iriam com cerca de uma hora e picos, mais coisa menos coisa não me recordo com muita precisão mas, já estava a antever que a partir dali, da zona para onde me estava a guardar (pois visualmente é tenebrosa, portanto é fugir e acelerar o mais rápido possível), teria de fazer alguns zigue-zagues até ao fim.
Abrandei então um pouco, pois na curva de retorno da Meia Maratona havia, já no regresso, do lado direito e logo após a curva, um abastecimento. Quem corre, ou já correu, ou assistiu, consegue imaginar a confusão que gerou, os atletas da Maratona “lançados”, a cruzarem-se com os da Meia Maratona que iam a direito depois da curva para o abastecimento, noutro ritmo e com outra focagem bem, uma confusão, não parei. Aceitei outro gele da organização, vi de novo a data de validade e continuei, começando a puxar para fugir aos tilintares de chaves e moedas cada vez mais frequentes, bem como a alguns “sacos do pão” que por ali andavam.
Encontrei a Piolha e a amiga, o Bruno e mais alguns amigos e amigas que por lá iam a correr a Meia Maratona. Procurei visualmente a Alexandra Palma, que disse que estaria por lá e não a vi. Fiquei um pouco preocupado pois ela tinha “garantido” que ia e, para não estar lá, podia não ser pelas melhores razões. Procurei também a Elsa e a Sara, que poderiam eventualmente ter ido até lá de surpresa ao quilómetro menos vinte e nove mas, também não as encontrei.

Quilómetro trinta e quatro até ao quilómetro quarenta e dois

Nesta desatenção, quando volto a focar na estrada, lá vejo as perneiras azuis a fugirem de mim. “Que raio, nem pensar” e força, ultrapassa, abranda, passam as perneiras, passo eu as perneiras e as perneiras a mim.
Numa Maratona, o tempo é deturpado, e todas estas repetições, tanto podem ter demorado trinta segundos como três mil, tanto podem ter sido duas como vinte, o tempo e o espaço são deturpados, daí ter advertido já no início que isto está escrito por aproximação, e não com precisão.
Voltando então à “luta de perneiras”, dou um arranque bem mais forte fugindo das perneiras azuis, e cá mais à frente olho para trás e vejo que não ia haver contra ataque dessa vez. Ora, bolas ainda faltavam um monte de quilómetros para aquilo acabar, ainda ia custar pois naquela altura é que a prova está a começar e a tornar-se divertida e então, virei-me para trás, fiz o gesto do “embora aí” movendo os lábios com a mesma expressão, e as perneiras azuis vieram aí.
Fomos seguindo então juntos, ora puxando um ora puxando outro, mudando a ordem e quem fazia o ataque mas, esperando sempre um pelo outro após as ultrapassagens. Em algumas situações eu puxava mais ainda, passava à frente, furava com “gritos” de “com licença, olha a esquerda”, “com licença, olha o meio”, e daí por diante. Fiz de barreira psicológica contra o vento que soprava e “exigi” que não houvessem fraquejos nem queixas, que isso ficasse para o final porque estávamos ali era para correr.
Na entrada do Parque das Nações, oiço então um grito pelo meu nome. A Alexandra Palma estava, de bicicleta, perto da Elsa Alcobia (que estava a participar na Meia Maratona e quase a chegar ao final também), e com um cartaz preparado para mim. Teve de acelerar, mais o cartaz enrolado e a pochete tudo na bicicleta, e foi bem lá para a frente para o abrir e mo mostrar. Adorei e confesso que, embora me apetecesse muito parar e tirar uma fotografia, com ela e com o cartaz, naquela altura não o podia fazer. Embora desse tempo (dá sempre tempo), ia perder toda a força anímica e a dinâmica das quatro perneiras que se entreajudavam a chegar ao final o mais rapidamente possível. Uma altura houve em que me pareceu que talvez fizesse efectivamente um tempo no intervalo previsto inicialmente, e tinha dado mas, optei por ser mais flexível e “curtir mais o espírito da Maratona”, para contrariar a ideia generalizada de que “no trail é que há interajuda e que a malta é toda companheira e cinco estrelas e que na estrada são todos uns isto e uns aquilo”.
No centro do Parque das Nações, havia, felizmente, muito público este ano. Na zona em separavam os traçados da Meia Maratona para a esquerda e a Maratona para a direita, iamos passando cada vez mais participantes, as quatro perneiras em voo, sempre a dar o litro, mais litro quanto mais amigos e amigas chamavam por mim, o Nuno e a Joana, a Catarina, o Tiago, a claque Run4Fun… A alguns conseguia responder, a outros nem por isso, dependia do ciclo de respiração em que estivesse na altura.
Dada a curva descendente, o Joaquim Adelino cumprimenta também, tira mais uma foto e entramos na reta da meta.
A chegada de uma Maratona é sempre alucinante, e esta foi alucinante, mesmo.
Para além da velocidade que levávamos, eu e a dona das perneiras azuis, o público estava a cair para cima da estrada. Isso aliado ao facto de o chão ser cheio de “falhas” naquela zona, tornou a chegada excitante mas perigosa, pois ainda fiz algumas razias a expectadores e desvios de irregularidades, pois ia do lado de fora da “pista”. Obviamente que, tendo em conta toda a relatividade da situação, a minha velocidade seria muito mais lenta do que aquela a que eu pensava que ia mas, no entanto, quarenta e dois quilómetros depois, qualquer grão de arroz é suficiente para fazer transbordar o prato.

Quilómetro quarenta e dois, cento e noventa e cinco metros

A meta, passada, a corrida, parada. O tempo para também e o silêncio apodera-se de mim para, num instante, voltar a ser invadido por todo o ruído e côr que me rodeia.
Um abraço, entre donos de perneiras de cores diferentes que deram, cada um, cerca de quarenta e dois mil passos para estarem ali naquele momento a ofegar. O que leva dois completos estranho a abraçarem-se depois de todo aquele esforço? A superação, o culminar de um processo e de tudo o que foi preciso ultrapassar para estar ali, naquele momento, e a emoção, cada um com a sua, bem como a antecipação do que virá a seguir. “É a tua primeira?” pergunto eu à dona daquelas perneiras cujo nome nem sabia há uma hora atrás “Sim, é.”, “Espetáculo, nunca te hás-de esquecer disto.” e penso que não disse mentira nenhuma.
Saimos, cada um à sua vida e à procura dos seus, sabendo que nenhum de nós se há-de esquecer destes quarenta e dois mil passos e picos.

Quilómetro quarenta e dois, cento e noventa e cinco metros

Fiquei, fui esperando mais amigas e amigos a chegarem, juntando-me aos que já tinham chegado, e aos que tinha ido só dar, um olá. A Catarina, o Vitor, a Bo e a Liliana, o Luís, o Fred, o Simão que conheci na hora, o André e a Cristiana de novo, o Severino que já tinha visto há quilómetros atrás, a Vera, o António, a Goreti, o Miguel, a Alexandra de novo, a Daniela, o João Ricardo que, chegado da sua primeira Maratona, se degladiava com o modo de abertura de um Cornetto, a Cecília e o Vasquinho, e mais, alguns anónimos, outros não, que iam indo e vindo, entranto e saindo do silêncio que teimava em apoderar-se de mim, e que me pedia oportunidade para se impôr. Alguns procurei e não encontrei, outros encontrei sem procurar, é mesmo assim a vida, nunca é bem aquilo que estamos à espera.
Uma ida a dizer olá ao António, dos UHF, que actuavam nessa hora, uma Coca-cola natural em troca de uma massagem VIP, e esperar.
Este quilómetro quarenta e dois, cento e noventa e cinco metros prolongou-se várias horas, relembro que o tempo numa Maratona é relativo. Umas vezes são uns, outras vezes são os outros e fiquei, ficámos, vários, à espera do Paulo Jorge, que ainda não tinha chegado. Chegou a Natália (valente), cumprimentei-a, e fomos mesmo para cima do cronómetro da chegada, onde o Ricardo Diez, que estava a colaborar na parte técnica, nos ia informando que ainda havia um atleta em prova, embora o tempo limite já tivesse passado, iam manter o tapete montado.
E lá vem o Paulo, “fresquíssimo da silva”, o último atleta a chegar, com direito a comitiva e claque personalizada. É óptimo, já me aconteceu o mesmo, e é óptimo, sem dúvida ter amigos à espera nestas alturas.

Quilómetro quarenta e quatro

Ir embora, sem almoçar, ainda, mas também sem fome, e ainda cheio de Maratona. De boleia com a Elsa Alcobia, que levou também o Marco e a Daniela, e desta vez sem toalhas nos bancos pois o alcatrão não suja tanto como a terra e o suor, esse, já tinha secado.

Quilómetro zero, de novo

Chegada a casa, ao ponto de partida quase doze horas antes. Doze horas, para correr quatro, e picos. O silêncio, antes do barulho, previsto. Só os mamíferos de quatro patas me esperavam. Os mamíferos e a casa, deserta de humanos que por outras paragens andavam, porque a vida não é só corrida ;)

4 comments

  1. Carlos Cardoso

    Muito boa a descrição da tua Maratona …. gostei ….parabéns por isso e pela Maratona conquistada. Abraço

  2. Amigo João, foi um dia absolutamente memoravel! Abraço :)

  3. Bem estou a gostar bastante de ler as descrições de toda a gente sobre a Maratona, mas a tua bateu qualquer uma ao nível de descrição :)

    Parabéns pela maratona!

    Não sabia dessa de ter um grupo de marcadores para não ser apenas uma pessoa a fazer a maratona inteira. Mas é realmente uma boa ideia e que evitaria a situação que presenciaste.

    Um abraço!

  4. Catarina Ameixial

    Mais um grande report João, sem dúvida. Muito Parabéns por tudo, 42 km é muito km e merece todo o nosdo respeito e orgulho para quem os decide fazer e faz, independentemente de ser a primeira ou a décima, caramba são 42 km que levam muito de nós meses antes quando nos estamos à preparar. Fantástico

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