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Maratona de Lisboa, 2015

A sétima Maratona de estrada, não foi só mais uma porque cada uma é sempre uma nova experiência. Para o bem e para o mal, este continua a ser o meu tipo de prova favorito.

Participei desta vez de novo, a convite de um amigo e em nome próprio mas, cheio de reservas. Tinha a hipótese de participar, a convite também, na Meia Maratona, distância mais segura e confortável. Ainda para mais, para a Maratona com zero treinos específicos, a coisa podia tornar-se desastrosa, felizmente tal não aconteceu.

As reservas, no dia anterior ainda seriam cerca de uma vintena. Entre ir em modo “autonomia total” com roupa seca às costas não me fosse apetecer sair a meio, ir à Meia Maratona, à Mini Maratona ou, pura e simplesmente não ir a nenhuma delas, que roupa levar, manga curta ou manga à cava, boné ou pala, que sapatilhas levar (a minha escolha número um estava e está na loja, com defeito, para troca), tudo valia para pôr areia na engrenagem e me causar confusão na cabeça.

No entanto, ao fim da tarde de sábado, acabei por decidir-me pela prova Rainha, em modo corrida, sem mochilas nem medos das chuvas nem das tempestades. Se a organização decidisse cancelar a prova olha, logo se via. Preparei o equipamento rapidamente, incluindo um saco para o bengaleiro para levantar no final, jantei, lavei a loiça e fui dormir à hora habitual.

Domingo de manhã, às seis, tinha os ex-Monsters à minha porta a apanharem-me para irmos para o Cais do Sodré. No grupo dois estreantes. Na viagem de comboio até Cascais alguma tensão misturada com humor e silêncio, se tal é possível de misturar. Viajámos confortáveis no segundo combóio, sentados de frente uns para os outros e chegámos a Cascais ainda de noite.

Os receios, especialmente dos estreantes Pedro e Daniel eram o ritmo a manter e as condições metereológicas deteriorarem-se, receios fundados pois no dia anterior tinha estado um temporal “daqueles” com árvores caídas e um petroleiro encalhado, em Cascais.

Na chegada, encontrámos o Joel José Ginga e o Frederico Cerdeira na Estação, e fomos andando para a zona de partida. Parámos na Bijou a beber café (quem quis) e encontrámo-nos com o Nuno Ameixial, fomos seguindo para o hipódromo e as minhas dúvidas continuavam, com casaco ou sem casaco? As nuvens no céu, pesadas, e aguaceiros ocasionais faziam-me recear uma tempestade, e não me apetecia nada estar umas horas dentro de uma tempestade.

Na zona da partida muitas caras conhecidas, é claro, muitos repetentes e muitos estreantes, muitas fotografias também. Eu, um bocado calado, afinal de contas ia fazer uma Maratona, é preciso respeito e solenidade no momento, especialmente para mim, que ia sem preparação específica, sem me sentir confortável e zero inspirado.

Tive de procurar inspiração algures, como não a encontrei, tive de pôr vários desafios a mim próprio.

O desafio principal foi então ir sempre no red line, a dar o máximo, sem desculpas da falta de treino ou do vento e da chuva que pudesse estar, ou do percurso praticamente deserto durante a maioria da prova, algo que já sabia que ia acontecer. A primeira esteve na minha mão ter tratado dela, as outras eram algo fora do meu controle portanto, nem valia a pena a preocupação.

O desafio secundário era fazer menos de quatro horas líquidas na prova, estando este interligado ao primeiro, red line e treino.

O terceiro desafio, complexo e completamente fora do meu controle, chegar antes do Zé Gab Quaresma, Emília Janela e Carla Raposo à meta. Todos eles iam sair do meio da Ponte Vasco da Gama, fazendo metade da minha distância mas eu tinha duas horas de avanço sobre eles. De repente as duas horas passaram a uma hora e cinquenta e cinco minutos, porque a partida em Cascais atrasou cinco minutos mas, que não fosse por isso.

Dado o arranque (sem casaco), e tendo em conta a estratégia red line, não ia esperar por ninguém e preferia que ninguém esperasse por mim. Partida a subir, volta pelo interior de Cascais e começar a descer, saída pela Baía deixando o encalhado “Tokyo Spirit” para trás. O Pedro Santos e o Paulo Silva iam perto de mim. Na saída de Cascais, separámo-nos. O Daniel e o Joel arrancaram mais lentos e ficaram lá para trás logo ao início da prova. Fui gerindo a distância e a cadência como podia. Especialmente nas subidas a coisa tornava-se mais fácil.

Perto de Oeiras, encontro a Dulce Reis. Vai num bom ritmo, no meu ritmo-alvo para menos de quatro horas, e fico um bocado perto dela, trocamos umas palavras breves, concentrados na corrida e na passada mas, sou traído pelos intestinos e em Santo Amaro de Oeiras tenho de encostar, despeço-me dela com um “vai lá que já te apanho” e vou tratar do que tenho a tratar. Arranco de novo, passo o Pedro Santos, que ia muito bem e muito estável, e acelero. Vou andando, sem distrações nem brincadeiras mas, em Belém, novo aperto, nova paragem. O Pedro passa-me de novo e chego à que é, para mim, a parte complicada do percurso, entre Belém e Cais do Sodré.

Uma recta com uma linha de combóio de um lado, prédios maioritariamente devolutos do outro, ufs… É nesta altura que penso sempre em quem faz triatlos grandes, distâncias IronMan, que duram 12 horas a fazer ao comum dos mortais… Isso é começar às oito da manhã, terminar às oito da noite, implica correr a Maratona ao fim da tarde, em sítios imagino sem público, o que é diferente de correr na “variedade” do mato.

Chegado à Ribeira das Naus, sigo pela “estrada” enquanto os restantes atletas que estavam à minha volta cortam caminho por cima do passeio e da relva. Subimos a Rua do Ouro, descemos a Rua da Prata, não sem antes haverem novos cortes por cima de todos os passeios possíveis e imaginários. Pessoalmente, no passado já o fiz, pontualmente mas, não passou disso, pontualmente, e nesta Maratona, nem uma vez atalhei, uma prova de estrada é para correr, na estrada.

À chegada a Santa Apolónia, já sabia o que me esperava, a junção dos percursos da Maratona e da Meia Maratona.

Os participantes da Meia Maratona dão a volta ali e juntam-se aos participantes da Maratona que vêm de Cascais na sua maioria já “todos partidos”. Tendo em conta as horas que já eram, a maioria dos participantes da Meia Maratona que ali estavam iriam fazer todos tempos acima das duas horas. O meu tempo habitual é um pouco abaixo das duas horas portanto, iam todos, no geral, mais lentos do que eu, como se tal fosse possível.

Não parei nesse abastecimento, imagino que seja mais simples entrar e sair do metro em Tokyo em hora de ponta do que parar ali, e fui seguindo, em zigue-zague por ali fora, a direito nas poças de água onde a maioria das pessoas se amontoava em fila pelas laterais para não molhar as sapatilhas, e pedindo licença a alguns grupos de participantes que seguiam aos quatro e cinco em fila, ocupando toda a faixa. Passei a Carla Raposo e caiu o Carmo e a Trindade, encontrei o Tiago Veiga com um amigo, e iam a bom ritmo, passei a Catarina Ameixial, passei o Pedro Santos na subida da “Pro Runner” (nem o vi, ele é que me viu a mim) e apanhei por fim a Dulce Reis na Avenida D. João II já perto da chegada.

Ia em modo visão funicular. Procurava a camisola amarela do Zé, e a Azul da Emília, não vi nem um, nem outro.

Chegado à meta, com um tempo ligeiramente superior ao meu melhor tempo de sempre numa Maratona (que tinha subidas como tudo), mas cheguei contente. Perdi cerca de oito minutos em paragens fisiológicas, não fosse isso teria feito menos de quatro horas e como tal atingido o objectivo secundário mas, tal como no futebol, só contam os golos que entram.

O objectivo principal foi atingido também, fui sempre no meu limite (dentro do confortável e seguro é claro), e o complexo terceiro desafio, bem, não encontrei o Zé e a Emília, só encontrei a Carla mas, cada um deles poderá falar por si caso queira ;)

Fiquei por lá, pela chegada, à espera que mais amigas e amigos terminassem a prova. Chegou a Dulce, chegou o Pedro, demos um abração e um beijinho na bochecha a cada um, porque os homens também se beijam. Chegaram finalmente o Joel e o Daniel, acompanhados do Jorge que tinha feito o percurso do Cais do Sodré até ali com eles, e chegaram muito mais que não consegui ver, ou aperceber-me que chegavam.

Saí da zona da chegada, declinei o Magnum com álcool, e fui ao camião-bengaleiro buscar a minha roupa seca, flutuando ainda naquela nuvem pós-Maratona que só quem passou por ela sabe como é. Os ex-Monsters foram-se embora e eu fiquei. Chegou o Nuno com a Catarina e o Luís, congratulei-os, foram-se embora e fiquei mais um pouco. Atravessei o Shopping e apanhei o primeiro de dois autocarros para casa, porque para mim, já chegava de caminhadas nesse dia…

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