99km de Sicó
99km de Sicó

99km de Sicó

Quase 111km de Sicó, estive vai não vai para ir até à última da hora, fui e, cheguei quase lá, aos 111km.

O antes

Depois de duas semanas doente, entre uma gripe, um problema numa raiz de um dente (que já não chateará de novo), o tomar anti-inflamatórios e antibiótico, poucos treinos e duas provas onde as condições físicas, especialmente a nível das canelas estavam abaixo de zero (numa das provas estive mesmo para ficar no primeiro abastecimento e correu o rumor de lesão e desistência, ao qual tive de fazer um “desmentido”, estive até à última da hora para participar nesta prova, onde estava inscrito desde o ano passado. Cheguei a ter um “não vou” garantido mas, depois de uma volta de quase 20km na quarta-feira antes da prova, e de várias conversas com o Luís Trindade acerca das expectativas e do estado físico geral em que me encontrava, e visto o treino estar feito e não haver muito a perder, alinhei na partida, se saisse derrotado, não seria no total.

Saída de Lisboa a meio da tarde com o grupo excursionista Sul-Norte. Chegada a Condeixa (a nova), levantamento dos dorsais, paragem numa padaria para “comer qualquer coisa” e direcção do pavilhão, para montar o estaminé, visto eu ir ficar por lá até Domingo, logo se via até que horas.

Juntos com mais participantes, o grupo foi jantar, tendo ficado eu a meditar. Não tinha muita fome, não podia comer nada muito rijo e precisava de me mentalizar, ainda mais, para o que tinha pela frente daí a umas horas. Assim, fiquei entre o pavilhão e o centro da Vila, “jantando” comida de astronauta, coisa leve e condensada.

À partida

Equipamento vestido, algumas dicas trocadas, algumas caras conhecidas. Abraços, votos de boa prova, apreensão e descontração. A prova era nova, o percurso era novo e para mim então, tudo era novidade. Tentei manter-me sempre em estado de flutuação, não deixando a preocupação do desafio apoderar-se de mim.

Arrancámos, passámos por dentro da Vila, e por dentro de Conímbriga, onde cuspidores de fogo nos cumprimentavam enquanto corriamos. A chuva, caia ligeira. As ultrapassagens sucediam-se a bom ritmo, uns passava nas subidas, outros passavam-me nas descidas. O Castelo de Penela, coberto de nevoeiro, era o primeiro ponto de “corte”, quem não chegasse à hora X, não passava. Cheguei folgado, meia hora, comi rápido e continuei. A chuva continuava e o frontal continuava a iluminar o caminho também.

A meio

Depois de alguma confusão com outras fitas, no escuro da noite, depois de passar por um faustoso abastecimento que mais parecia pertencer a um casamento do que a uma corrida, cheguei a meio, sensivelmente, da prova.

Uma “base de vida”, no ponto de partida. Aqui, podiamos mudar todo o nosso equipamento e, resistir à tentação de ficar por ali. Cinquenta quilómetros já tinham passado. Cheguei folgado, duas horas antes do limite e, optei por não mudar equipamento nenhum, em equipa vencedora não se mexe (muito). Recolhi os bastões, apanhei o boné, avaliei que continuava “seco” da chuva e com o nível de transpiração aceitável, repuz os abastecimentos próprios que tinha gasto e, fui comer.

O pequeno-almoço, ou almoço, sei lá, esparguete à bolonhesa, coca-cola, presunto e tomate. Por outros lados já foi escrito mas, que fique aqui para memória futura que, nesta prova, o que não faltou foi comida e bebida nos abastecimentos. Já passei por algumas e, o que vi aqui, vai ser difícil de ultrapassar. Por essas e por outras é que não deixo de recomendar as provas organizadas pela associação O Mundo da Corrida, sabendo que, do que já vi, é “à confiança”.

A segunda parte

Partindo para a segunda parte da prova, aqui já entrava na zona de não-conforto. A Minha maior distância em todo-o-terreno havia sido em Barrancos, numa prova da mesma organização e, após a Cascata em Sicó, essa distância foi ultrapassada. O terreno, nesta segunda parte, adivinhou-se logo mais complicado.

Ao quilómetro 60, mete complicação nisso, uma parede que me obrigou efectivamente a subir de gatas, quase deitado, fez-me desesperar. O cansaço e a cabeça já estavam a dar conta de mim, pensava que no quilómetro 64 não passaria a partir das 13h00 e, com essa parede, atrasei-me e não foi pouco. Cheguei a esse quilómetro às 13h10 (aproximadas) já completamente desmoralizado por ter sido “cortado” ali mas, na realidade, o corte era às 13h30 e portanto, pude seguir.

Veio então a segunda parede, não tão íngreme como a primeira, era no entanto muito mais longa, a mais longa de todas. Não foi necessário subir de gatas mas, por perto lá andei, chegado ao topo, a tempestade.

A tempestade

Na segunda parede do percurso, e antes do topo, a chuvinha miudinha passa a chuva constante e chegado lá acima, a tempestade.

Esta foi a terceira que apanhei em todo-o-terreno. Serra d’Arga, Montes Saloios e Sicó. A chuva, não caia de cima mas, vinha de frente, na horizontal. As eólicas, estando nós a correr na sua base, não se viam e, a visibilidade geral seria, quanto muito, quinze metros. Lá fui progredindo, como pude, seguindo as fitas brancas como conseguia.

Lá no topo, uma estrutura, parecida com um castelo, com uma fita. Em frente, mais fitas e segui, de olhos cerrados com as mãos a arrefecer. Embora fosse protegido em todo o corpo nas mãos não ia. Fui avançando, devagar, vendo as fitas ao longe, passei um portão, passei dois, avancei e deixei de ver fitas. Parei e pensei, é o que se deve fazer quando não se vêm fitas numa prova de trilhos. Avancei mais um pouco e decido voltar atrás, até à última fita que tinha visto. Chegando-me mais perto, não era uma fita não. Era um pedaço de plástico, branco, arrastado pelo vento, e que estava preso num arbusto, e no meio da tempestade era tal e qual uma fita da marcação da prova.

Volto mais atrás e, pela lei das probabilidades, encontro do outro lado do estradão um bocado de plástico praticamente igual. Não me sobra senão voltar ao último cruzamento, onde estava a tal estrutura e aí, analisar de novo a situação, sendo que deveria ter virado à esquerda, onde as fitas seguiam lá mais à frente. Um misto de inexperiência e falta de marcações fez-me perder aí uns bons quinze minutos.

Seguindo então o caminho correcto, a tempestade intensificava-se. Optei por calçar as luvas, mesmo não sendo impermeáveis, durante um pouco foi melhor do que nada. Comi também uma barra calórica, para ganhar alguma energia. Aparece então, “o pastor”. Um cavalheiro, nos seus 70 anos, numa carrinha de caixa aberta que procurava o seu rebanho de ovelhas tresmalhadas. Perguntou-me “viu as minhas ovelhas por aí?”, “acha que sim? Não se vê nada com esta chuva”, “pois, isto tá mau, você anda aqui a fazer o quê, a passear?” e eu “não, é uma corrida”. “ah sim? Quantos quilómetros?” e quando lhe respondi quantos, disse-me, em português rural que eu “estava fecundado”… Despedimo-nos com um boa sorte mútuo e segui o meu caminho. Passagem nos moinhos, a tempestade continuava implacável. O topo da Serra devia ter uma paisagem belíssima. Infelizmente, não vi nada.

O sono

Chegado à encosta Sul, o sono. Com a tempestade transformada num aguaceiro e a adrenalina a baixar, veio o sono, bastante sono. Tanto sono que, me vi obrigado a procurar maneira de descansar, isto antes de cair (o que não chegou a acontecer).

Primeiro tentei a técnica de “uma passada de olhos abertos, uma de olhos fechados” já que estava num estradão largo e sem grandes incidentes mas, não deu mesmo. Estando tudo molhado da chuva que continuava a cair, sobrou-me encostar-me a um tronco praticamente na horizontal, em pé, com os olhos fechados durantes uns momentos. Não sei se foram 5 segundos, se foram 5 minutos mas, achei que já era tempo de seguir. Veio então o trilho do Vale de Poios, lindíssimo, quase extra-terrestre, e a paragem no abastecimento “No limits”, onde comi duas canjas, uma delas com ovo e cebola.

Até aos noventa e nove

Arrancado, depois de um grupo de cinco participantes me perguntar se queria seguir com eles, subida até à capela, declinei a companhia. Estive praticamente todo o tempo sozinho, só comigo, e assim ia continuar, há desertos que devemos atravessar sozinhos, e este era um deles.

A chuva já era só um aguaceiro e, na subida, como de costume, ultrapassei. Quando começámos a descer, fui ultrapassado, e fui de novo quase até ao fim assim. O frontal voltou à cabeça, a velocidade manteve-se constante. Já não tinha sono e começava a escurecer. O tempo passava devagar, começaram as dúvidas, se chegaria a tempo, ou não, ao “corte” do quilómetro 93. Já ia com quilómetros a mais e velocidade a menos, a mente divagava pelas mensagens que tinha recebido da família, amigas e amigos antes e durante a prova, que via quando tirava o telefone do modo “avião” e que tanta força me deram, e a quem tanto agradeço.

Divagava pelas fotografias que já tinha tirado, pelo tempo que tinha perdido, por tudo o que já tinha visto, pela zona onde poderia ter acelerado mais, parado menos, pensava nas vezes que já tinha feito xixi, se devia ou não ter levado os bastões naquela segunda parte da prova, nas luvas que continuavam molhadas e que não podia usar, senão as mãos iriam congelar, pensava em muita coisa, é imaginável.

Entretanto, um participante, sozinho, que ainda não tinha visto, cheguei-me a ele. Estava com um problema numa virilha mas, conseguia andar, fiquei um bocado junto a ele, não precisava de mim, segui. A cerca de um quilómetro do próximo ponto de controle, de acordo com os meus cálculos mentais, as fitas desapareceram de novo. Na estrada, não haviam cruzamentos e arrisquei seguir em frente devagar, era uma descida, longa. Aparecem então de novo as fitas, bem como alguns marcadores reflectores, que me levaram ao ponto de controle.

Cheguei lá, ao quilómetro noventa e três com noventa e nove quilómetros percorridos, segundo o meu GPS. O tempo, cerca de dois minutos pós-limite. Nessa altura, os participantes que iam à minha frente saiam para continuar a prova e eu, fiquei-me.

A organização simpaticamente deixava-me prosseguir. Estava bem fisicamente e mentalmente, continuava sereno e tranquilo mas, se não tivesse tirado tantas fotografias e se fosse mais “focado” nas zonas onde me perdi, talvez isso não tivesse acontecido e não me tivesse atrasado tanto. Tirei 13 fotografias durante a prova, se cada fotografia fôr um minuto, são 13 minutos, e daí por diante, numa distância tão grande os atrasos acumulam-se assim, aos bocadinhos. Há alturas em que temos de escolher um caminho e, o caminho que escolhi foi o de ir sozinho, “nas calmas” e isso reflectiu-se nesses dois minutos a mais.

Optei então por não seguir. Regulamento é regulamento, e se aceitasse e seguisse, estaria a desrespeitar o mesmo, e a desrespeitar todos aqueles que se tinham esforçado por chegar ao ponto de corte antes de mim. Resignei-me, e apanhei boleia de ambulância até Condeixa-a-nova, à porta do pavilhão, onde fui deixado.

A dormida

A ficar com frio (estava com a mesma roupa há 21 horas e qualquer coisa), fui directamente para debaixo do chuveiro, não sem antes tirar a roupa que tinha, é claro. As meias e as sapatilhas não sobreviveram à provação, e ambos se rasgaram. A água, quente o suficiente para me aquecer, lá tirou a lama e o suor que me acompanhavam há horas. Vesti algo confortável, fui à zona da chegada ver quem aparecia mais e recolhi ao meu casulo, de manhã a festa continuava com a prova dos 65km, 25km e caminhada.

Alvorada

Acordei atrasado, com um bilhete dentro do sapato. Combinado com o Joel, a Elsa e a Sandra acordar cedo para ver a partida dos 65km, onde o Joel se ia estrear, o relógio não tocou, traído pelo “modo avião”. Acordei então com as minhas amigas a irem-se embora, e com o recado dentro do sapato. Vesti-me à pressa, nem xixi fiz, e fomos a correr para a partida. Infelizmente, chegámos lá dois minutos e tal depois da partida, os mesmos dois minutos e tal da noite anterior no quilómetro noventa e nove.

Fomos a um café, pusemos a conversa em dia e voltámos ao pavilhão, a Elsa e a Sandra equiparam-se e fui pô-las à partida. Depois disso, voltei ao pavilhão, arrumei as minhas coisas e fui dar uma volta a Conímbriga com o Joaquim Adelino, onde começámos a ver os primeiros participantes dos 25km a chegar.

Voltámos à vila e fui almoçar sozinho. Um frango assado, coisa suave. Estava com fome de comida verdadeira mas não podia entrar em grandes abusos de coisas rijas. Voltei para a zona da chegada, vi as minhas amigas a chegar, fui pô-las ao restaurante depois de terem passado no pavilhão e fui ficando pela tarde dentro, vendo outras amigas e amigos a chegar, muitos estreantes na distância grande. Outros se juntaram a nós na espera e, chegou então o Joel, maravilhado com a sua superação.

Celebrámos com ele, fotos e brincadeira, fomos ao pavilhão para (o Joel) mudar de roupa e saimos finalmente de Condeixa, e fomos visitar a Dona Lídia e o Gato Ivan (que eu não vi), onde comemos uma bucha e depois seguimos cada um para seu lado, eu para Lisboa com a Elsa Alcobia.

Alvorada dois

No dia seguinte, segunda-feira, acordei em casa. As pernas como novas e a cabeça continuava, tranquila. Saí, estando de férias e depois de deixar a Sara na escola, dei uma caminhada valente por Lisboa, aproveitar para dar um ultra corte de cabelo com o ultra barbeiro António.

One comment

  1. Carlos Cardoso

    Muito bom João….admiro o espirito com que encaras esta coisa da corrida. Parabéns pelos 99km e por este excelente texto.
    Abraço

    P.S. Tens que treinar melhor a parte de tirar fotografias…1 por minuto??? :) …é que eu tiro dezenas ;) …mas olha que se por um lado se perde tempo, por outro dá para descansar e recuperar um bocadito :):):)

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