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Um fim de semana barranquenho

Há vários meses em fila de espera, com o dorsal número um, esta segunda edição do Trail Transfronteiriço de Barrancos foi a minha última ultra-aventura de 2014.

Os 57 quilómetros e a dificuldade técnica causavam-me algum receio, confesso. Embora este ano, de 2014, tenha feito outra ultra-aventura de todo-o-terreno, nocturna em Óbidos, os meses de preparação que antecederam esta prova, cuidadosamente elaborada pelo Ico Bossa de O Mundo da Corrida, as fotografias, relatos e avisos que ia disponibilizando na página do evento deixavam-me, receoso. No entanto, no final, tudo acabou bem mas, vamos por partes.

Os preparativos e a viagem

Combinada também há semanas, a viagem correu sobre rodas. Saída mais cedo do escritório, encontro no sítio combinado com os companheiros de viagem e arranque para Barrancos, sem incidentes. Paragem no pavilhão onde iríamos pernoitar a dobrar para deixar os sacos cama e reservar lugar, buscar os dorsais e jantar, ao restaurante a Pipa, onde comemos uma magnífica carne de porco e vitela, na telha (basicamente, a telha vai ao forno e a carne vem a grelhar para a mesa).

No restaurante, e inclusivé na nossa mesa, só caras conhecidas, a comer o mesmo, a ementa era limitada a três variedades de carne, e o preço, muito simpático, mesmo.

Acabados de jantar, rumámos ao pavilhão, para a minha primeira experiência de dormir em “solo duro” numa prova de corrida de trilhos.

O despertar e a viagem até Encinasola

Após uma noite semi-bem-dormida, com algum barulho ambiente de outros participantes a chegarem e a montarem acampamento, acordei com as galinhas, equipei e arrumei tudo excepto a esteira e o saco-cama, que ficaram no mesmo sítio, visto ir pernoitar, de novo no pavilhão, na noite a seguir à prova.

Fomos para a zona da chegada, em Barrancos, onde encontrei muito mais caras conhecidas, e onde o Luís Trindade me presenteou com uma fita Buff amestrada, que só lhe falta correr sozinha. Apanhámos a primeira camioneta para a zona da partida, Encinasola, em Espanha, onde o sol e o frio nos esperavam. Depois de muita conversa e muitas fotografias, combinação de estratégias e gestão de expectativas, às nove horas (de Portugal) pontuais, é dada a partida para a prova grande.

A prova

A prova, o que posso dizer eu da prova? Foi dura? Foi mas, felizmente, estava preparado e mentalizado para a dureza. Muita água, lama, charcos e pedras, escorregadias e soltas, havia de tudo para todos os gostos. Havia estradão, haviam “single-tracks”, haviam corta-fogos que nunca mais acabavam. Houve calor, um magnífico dia de sol que fez com que estivesse sete horas de t-shirt e trouxesse na cara a marca do sol. Houveram paisagens magníficas, cheiros e silêncios que me ajudaram a perceber porque é que quem lá mora, de lá não quer sair, houveram passagens perigosas, um rio para ladear com pedras e lama que, à mínima desatenção eram desastre na certa, felizmente, não houve nenhum.

Houve o factor humano, o perigo do factor humano. No meio de tanto perigo natural ultrapassado, só o perigo do factor humano me magoou, o arranhão no arame de uma vedação e o resto, aquilo que acontece em Barrancos, e que fica em Barrancos. Adaptando o que disse um amigo, uma prova longa, na Serra, permite que cada um se conheça a si próprio, e também quem o rodeia, sem dúvida.

Cheguei ao fim, cheguei bem, inteiro e sem mazelas, excepto as que referi anteriormente. Cheguei cansado mas forte, consegui subir e descer escadas no dia a seguir, e andar sem coxear, penso que honrei o dorsal número um. Já agora e para quem não sabe, o número foi atribuído por ordem de inscrição e pagamento, e não por favorecimento, diplomacia ou delicadeza da organização.

Não fui o último a chegar. Não fiquei longe mas não faz mal, tive a sorte de ter amigas e amigos à minha espera, e tive a sorte de poder ficar e aplaudir esse fenómeno que é a Analice Silva, a chegar em grande força e simplicidade.

Deram que pensar, estas dez horas e vinte praticamente sozinho, embora rodeado ocasionalmente deste e daquele, mantendo sempre uma distância confortável, especialmente no final, dos “três Reis Magos”. Deram que pensar que, podiam realmente ter sido só dez horas, como eu previa e queria, se em vez de duas sopas em cada abastecimento tivesse sido só uma sopa. Podiam ter sido só dez horas se eu não tivesse parado para fotografar aquela pequena flor para enviar, em tempo real a fotografia, à Elsa. Podiam ter sido só dez horas se eu não tivesse parado para tirar uma fotografia com o Ico, à beira rio, prestando-lhe a devida homenagem como director do percurso, usando-a como capa deste texto. Podiam ter sido só dez horas se não perguntasse ao outro companheiro se estava bem, se não desse um beijinho a uma amiga, podiam ter sido só dez horas, sim, mas não foram, e não faz mal, porque o tempo não é tudo, especialmente numa prova desta dimensão e dificuldade.

Deram que pensar, estas dez horas e vinte, no passado, no presente e no futuro. De onde venho, onde estou, e para onde quero ir. Não deu muito bem para concluir como farei para lá chegar mas, deu para pensar no onde, falta o como, arranjarei tempo para isso também, o tempo é relativo.

Depois da chegada

Depois da chegada, um banho bem quente nos balneários do Estádio de Futebol, junto com alguns dos outros companheiros de prova, despedida da organização e arranque para o restaurante “A telha” onde o jantar foram uns chouriços e familiares, um arroz de pato e um polvo à lagareiro, confeccionados de uma maneira digamos, sui-generis. Não foi desta que fui ao “cozido” mas para o ano que vem fica na mira.

O restaurante, “a telha”, tinha uma particularidade, podia fumar-se lá dentro. Nós quatro, companheiros de viagem, eramos os únicos que não fumavam, e os únicos que não falavam barranquenho também, curiosidades.

No final, fomos ao baile, onde sabiamos que iria actuar o Fanan e o DJ Sandro. Supunhamos também que iriamos encontrar o Zé Maria, “do Big Brother” e assim foi, desmistificando o mito de “as vedetas de televisão têm a mania que são importantes”. Não ficámos até ao DJ actuar, fomos andando, conforme podiamos, para o pavilhão, que o sangue estava na digestão e era preciso descansar.

A noite, foi igualmente semi-bem-dormida, havia menos gente no pavilhão (muito menos gente, diga-se), e uns participantes espanhóis ainda chegaram, alegremente, a meio da noite, a celebrar terem terminado a prova. Ouvi, vi, virei para o outro lado e dormi.

No regresso

Malas arrumadas, arranque e paragem na Amareleja para o pequeno-almoço pois em Barrancos, nada. Conversa casual na viagem e chegada a casa e à família, com saída directa para almoço, a contar esta história, a ouvir outras, e a falar do futuro também, porque a vida não é só corrida ;)

One comment

  1. Foi uma prova absolutamente fantástica, eu adorei!

    Muito parabéns pela Ultra

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