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Caldas Ultra Trail, 2015

Haviam, neste fim-de-semana, o Monte da Lua em Sintra no mesmo dia, prova onde nunca fui mas, não me “cheirava” e a Ultra Maratona Atlântica Melides-Tróia no dia seguinte. Para lhe fugir este ano, aproveitando então para ir conhecer uma zona nova, de uma forma que ainda não conhecia, fui às Caldas e optei por não fazer nem mais um quilómetro na primeira edição do Caldas Ultra Trail.

A 21 de Maio tomei a decisão e inscrevi-me para a prova, 50 quilómetros diziam eles. Em conversa com o Joel José Ginga, também ele se inscreveu e o Paulo Silva andou vai não vai para o fazer. Se por um lado a distância da prova lhe metia respeito, por outro lado a curiosidade não o deixava descansar, e inscreveu-se claro está, para a estreia numa longa distância de todo-o-terreno.

Para mim, seriam mais 50 quilómetros percorridos. Sabia, pelo mapa preliminar que, a primeira parte do percurso seria “suave” e a segunda parte “agreste” mas, já lá vou a esses pormenores.

Os dias antes, a viagem e a partida

Com a bagagem preparada com dois dias de antecedência, incluindo kit de praia para a Elsa e a Sara, que também foram em modo de acompanhamento aos atletas, saímos de casa cedo, ainda nem seis horas eram. Apanhámos o Paulo em casa e chegámos ao Nadadouro na hora prevista, uma hora antes do arranque. Levantámos os dorsais sem filas nem atrasos, e convivemos como habitualmente com as caras conhecidas destas lides, poucas no entanto, visto na “prova grande” haverem somente cerca de 90 atletas presentes.

O clima húmido, muito húmido, parece que é habitual naquela zona, mesmo em Julho. Dada a partida, ao fim de 10 minutos estava completamente ensopado, até às cuecas, adiante, vale o Nok colocado em todos os pontos estratégicos do corpo.

Seguimos os três em grupo, o Paulo, eu e o Joel. Levávamos a estratégia de ir juntos até ao fim, desse por onde desse. Enquanto uns teriam de acelerar, os outros teriam de travar, com os grupos é assim, a força de um grupo é sempre a força do seu elemento menos forte. Entretanto, nesta altura o Joel José…

Até ao segundo abastecimento

Até ao segundo abastecimento (quilómetro 23, mais coisa menos coisa) em São Martinho do Porto, fomos a acelerar, bastante. Entrávamos e saíamos de bancos de nevoeiro, passávamos do estradão ao single-track, subidas e descidas. Alturas houve onde corremos a menos de 5 minutos e meio por quilómetro.

O Paulo seguia na dianteira, eu e o Joel José iamos alternando o meio e o fundo. Pedi então para abrandarmos um pouco. Não que fosse mal, ia confortável mas, já fiz alguns quilómetros, e sabia mais ou menos o que aí vinha. Achei que estava a queimar muita energia logo nesta fase da prova, e ainda nem a meio tínhamos chegado. Entretanto, nesta altura o Joel José…

Da duna ao abastecimento quatro

No abastecimento, onde parámos durante, sei lá, dez minutos, pergunta-me o Paulo “Então, e quando achas que vai começar a fase crítica?” e eu “A fase crítica? Já começou, vais a ver…”

Depois de reabastecer de água, e comer fruta, veio a duna. Logo virando à esquerda, após o abastecimento, tivemos de subir “a duna”. Fui à frente, o Paulo a meio e o Joel no fim, lá em cima areia até descer de novo a duna, por outro lado. Um de nós, “morreu” logo na subida, e na corrida pela areia. Esse elemento da nossa “equipa ad-hoc” só tinha corrido uma vez na areia, e foi na praia em Carcavelos a jogar raquetes, correr ali, foi bem mais complicado.

Passada a duna, vêm as arribas. Mais uma vez, entre nevoeiro e sol, descíamos ao nível do mar, subíamos ao topo do monte, e assim por diante, dez quilómetros disso, mais coisa, menos coisa. Pelo meio, dois pontos de abastecimento de água extras, onde voluntários da organização tinham água para os participantes e, numa das zonas, ajudavam a descer quem precisasse. Nós, lá íamos gerindo o esforço como podíamos. Outro de nós “morreu” no quilómetro trinta, a cabeça é tramada. Pessoalmente, comecei a ficar irritado e impaciente. Não gosto muito de arribas, já sabia que a prova ia ter arribas, estava cansado, sem força, com um dedo a doer por causa da areia e do “bater à frente”, vá lá que não sou queixinhas. Lá fomos andando, sempre a puxar uns pelos outros. O Paulo, mais eram as vezes que esperava por mim e pelo Joel do que não, eu e o Joel, continuávamos a alternar entre o meio e o fim, como podíamos. Entretanto, nesta altura o Joel José…

As paredes e a chegada

Depois do terceiro abastecimento, já com as arribas a terminar, “levámos” com duas paredezitas compridas, só para desenjoar e, quando chegámos finalmente ao quarto abastecimento, nessa altura então pudémos voltar a correr, o período crítico já tinha acabado e não nos tinha vencido. Ainda estávamos em pé e, alturas houveram que conseguimos correr a menos de seis minutos por quilómetro.

Na chegada, pouca gente à espera. Um amigo tirava-nos fotografias, e a Elsa e a Sara, claro, para além da organização e já alguns dos voluntários dos abastecimentos que tínhamos largado há horas. Fizémos menos de dez horas de prova, pouco menos. Se poderiamos ter feito menos? Sim, mas também poderiamos ter feito mais, corremos quando pudemos, andámos quando não conseguimos dar mais. Chegámos ao fim ilesos, sãos e salvos, assaduras e queimaduras solares (mesmo protegidos) não contam como lesão. Entretanto, nesta altura o Joel José…

Banho e viagem

Por esta altura, o Joel José tinha outro problema em mãos. Já tinha perdido as suas possibilidades de transportes de ligação para regressar a casa e, o problema dele tornou-se nosso. No nosso carro, não cabia, toca de procurar uma boleia.

Perguntei à organização, perguntei aos presentes até que, a Patrícia Jeremias e “Companhia” conseguiram resolver a situação, levando-o a um sítio algures onde conseguisse apanhar o combóio da Linha do Norte, obrigado Patrícia.

O banho, quente, o balneário, vazio, vantagens de ser um dos últimos a chegar (o balneário vazio, porque o banho quente é sempre uma roleta). Entretanto, nesta altura o Joel José…

Pós-prova

Alguns alongamentos, enquanto a Sara brincava no parque infantil do Nadadouro e arrancámos para Sul. Deixámos o Paulo em casa e, porque já se fazia tarde, optámos por jantar na rua, uma refeição calórica daquelas que é preferível não ser explícito a dizer o que foi.

No resumo, foi uma “viagem” agradável e desafiante, sempre bem acompanhado e sempre com o espírito do grupo em alta, não deixando que as dificuldades se sobrepusessem ao prazer do percurso e da companhia, e especialmente sem derrotismos, mesmo no meio do caos e miséria que se instalou a certa altura. Pena o nevoeiro, que não deixou o olhar alcançar mais além mas, sem dúvida, uma viagem a repetir… Entretanto, nesta altura o Joel José…

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